sábado, 16 de setembro de 2017

Social, normal, amiga, companheira


Eu entro e saio pela porta dos fundos, de forma mais silenciosa possível. Não quero incomodar, não quero aparecer. Que não se note o que há de bom, nem o que há de ruim, apenas que não se note. Subo várias andares de escada. A cada interação social, um esforço mental enorme para parecer social, normal, amiga, companheira, camarada, engraçada. Esforço para tentar sair da bolha em volta de mim, na qual me sinto confortável. Como aquela kitnet que é pequena, mas você ama, pois tem tudo que precisa - e tudo está em seu lugar. Esforço para que a dor de barriga passe, assim como o aperto no estômago, facilmente confundido com borboletas. Poderão ser borboletas? Não, pois esse desconforto machuca devagar e a cada dia. Até o fim dos tempos. Tudo é cinza e sem cor. Do pouco que vejo dentro da minha bolha, percebo que ninguém fala o que quer, todos falam o que for preciso para se encaixaram, serem engraçados, cômicos, normais, sociais, amigos, companheiros. Mas eu entro e saio pela porta dos fundos, de forma mais silenciosa possível. Fugindo da dança social que me persegue, na qual sou obrigada a participar, para ser  social, normal, amiga e companheira. Eu entro e saio pela porta dos fundos, e quando na minha casa eu entro, sair eu não quero mais. Nunca mais se fosse possível. Comemorar eu não quero, visitar eu não quero. Me arrumar, eu não quero. Me envolver, eu não quero. Quanto mais silencioso melhor. Quanto mais eu melhor. Eu entro e saio pela porta dos fundos, de forma mais silenciosa possível, pois assim, chorar eu posso. Explica, explica, explica, QUAL O MOTIVO DE TANTA TRISTEZA? Tem tudo que quer, pra que isso? Não tem motivo, não tem o que explicar, eu não posso me manisfestar dessa forma. Eu não posso definir e nem quero. Graças a zeus choro não é feito de palavras. Assim não tenho que explicar nada para ser social, normal, amiga, companheira. O choro me acompanha sempre, e não pergunta como eu estou, não nota que eu cheguei pela porta dos fundos. Não pergunta qual o motivo da minha tristeza. Ele acompanha minha tristeza, observa, faz as borboletas irem embora, sempre pela porta dos fundos, de modo mais silencioso possível.


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